A Inteligência Artificial traduz cada vez melhor. Mas continua a existir um fator que nenhuma máquina consegue substituir: o julgamento humano.
Nos últimos dois anos, a Inteligência Artificial transformou profundamente o setor dos serviços linguísticos.
A evolução dos Large Language Models (LLMs), dos sistemas de reconhecimento automático da fala (ASR) e da tradução automática em tempo real levou muitas organizações a questionarem se a interpretação e a tradução humanas continuarão a ser necessárias.
É uma questão legítima.
Mas talvez a resposta mais interessante venha precisamente dos maiores especialistas mundiais nesta área.
Recentemente, um grupo de 55 investigadores provenientes de 31 organizações internacionais, incluindo equipas da Google DeepMind, Apple, Zoom, ETH Zurich, Translated, AppTek, entre outras empresas e universidades de referência, publicou uma das análises mais completas sobre o estado atual da tradução automática de fala (Speech Translation).
A principal conclusão poderá surpreender muitos.
Apesar dos enormes progressos alcançados pela Inteligência Artificial, o julgamento humano continua a ser o principal padrão de avaliação da qualidade linguística.
A tradução de voz continua a ser um dos maiores desafios da IA
Traduzir texto já é uma tarefa extraordinariamente complexa.
Traduzir voz em tempo real é incomparavelmente mais difícil.
Um sistema de tradução automática de fala necessita de executar, quase em simultâneo:
-
reconhecer corretamente o discurso;
-
identificar diferentes oradores;
-
eliminar ruído ambiente;
-
compreender o contexto;
-
interpretar intenções;
-
traduzir;
-
produzir uma resposta natural na língua de destino.
Cada uma destas etapas pode introduzir pequenos erros que acabam por se acumular ao longo da comunicação.
É precisamente por esta razão que congressos científicos, reuniões governamentais, conferências internacionais ou eventos médicos continuam a representar alguns dos cenários mais exigentes para qualquer sistema baseado em Inteligência Artificial.
O paradoxo do contexto
Uma das conclusões mais interessantes do estudo demonstra que os atuais modelos continuam a apresentar dificuldades em manter coerência ao longo de apresentações extensas.
Este resultado é particularmente curioso porque acontece exatamente o contrário com intérpretes profissionais.
Quanto mais longa é uma conferência, maior é o conhecimento acumulado pelo intérprete.
Ao longo da sessão, o profissional aprende:
-
terminologia especializada;
-
acrónimos;
-
estilo do orador;
-
referências anteriores;
-
objetivos da comunicação;
-
preferências linguísticas.
Em vez de perder contexto, o intérprete humano constrói contexto.
Esta continua a ser uma das maiores diferenças entre inteligência artificial e inteligência humana.
A IA continua a ter dificuldade em seguir instruções complexas
Outra conclusão importante prende-se com a capacidade dos modelos seguirem instruções específicas.
Embora sejam extremamente competentes em tarefas gerais, muitos sistemas continuam a demonstrar dificuldades quando lhes é exigido:
-
respeitar terminologia obrigatória;
-
manter consistência durante longos períodos;
-
adaptar o registo linguístico;
-
aplicar instruções muito específicas ao longo de toda uma intervenção.
Num contexto empresarial, jurídico, médico ou diplomático, pequenas inconsistências podem alterar significativamente o significado da mensagem.
A verdadeira pergunta continua sem resposta
Talvez o aspeto mais interessante do estudo seja outro.
Como avaliamos a qualidade de uma tradução produzida por Inteligência Artificial?
Hoje existem diversas métricas automáticas capazes de comparar diferentes modelos. No entanto, os próprios investigadores reconhecem que essas métricas continuam longe de reproduzir aquilo que um linguista experiente consegue identificar. Os algoritmos conseguem, frequentemente, classificar qual dos sistemas é melhor.
Mas continuam a ter dificuldade em responder à pergunta que realmente interessa ao cliente:
"Esta tradução transmite exatamente aquilo que o orador pretendia comunicar?"
A resposta continua, na maioria dos casos, a depender da avaliação humana.
A qualidade continua a ser um conceito humano
Na tradução profissional, qualidade nunca significou apenas correção gramatical.
Qualidade significa também:
-
intenção comunicativa;
-
contexto cultural;
-
adequação ao público;
-
precisão terminológica;
-
coerência;
-
fluência;
-
impacto.
São fatores difíceis de medir através de simples métricas estatísticas. Por isso, mesmo os sistemas de avaliação automática mais avançados continuam a ser desenvolvidos para se aproximarem do julgamento humano, e não para o substituir.
O futuro não será "IA ou humanos"
Durante vários anos, o debate foi apresentado como uma escolha entre tecnologia e profissionais.
Hoje percebemos que essa visão era demasiado simplista. O futuro será claramente híbrido.
A Inteligência Artificial permitirá:
-
acelerar fluxos de trabalho;
-
automatizar tarefas repetitivas;
-
apoiar preparação terminológica;
-
produzir primeiras versões;
-
melhorar acessibilidade em tempo real.
Os especialistas humanos continuarão responsáveis por aquilo que verdadeiramente diferencia um serviço linguístico de excelência:
-
interpretar contexto;
-
gerir ambiguidades;
-
validar qualidade;
-
adaptar cultura;
-
assumir responsabilidade pelas decisões linguísticas.
Em vez de substituir profissionais, a tecnologia está a transformar profundamente o seu papel.
A visão da AP | PORTUGAL
Na AP | PORTUGAL acompanhamos diariamente esta evolução. Somos uma empresa certificada pelas normas internacionais ISO 17100 (Serviços de Tradução), ISO 18587 (Pós-Edição de Tradução Automática) e ISO 23155 (Serviços de Interpretação), precisamente porque acreditamos que inovação tecnológica e qualidade devem evoluir em conjunto.
Utilizamos Inteligência Artificial sempre que esta acrescenta valor aos nossos clientes. Mas também sabemos que a tecnologia, por si só, não garante uma comunicação eficaz.
A verdadeira excelência continua a resultar da combinação entre:
-
Inteligência Artificial;
-
linguistas especializados;
-
preparação terminológica;
-
gestão da qualidade;
-
experiência humana.
É esta integração que permitirá responder aos desafios cada vez mais complexos da comunicação internacional.
Conclusão
A Inteligência Artificial continuará a evoluir de forma extraordinária.
Os modelos serão mais rápidos. Mais precisos. Mais multilingues. Mais eficientes.
Contudo, os estudos científicos mais recentes apontam todos na mesma direção.
A tecnologia pode produzir traduções.
Mas continua a ser o ser humano quem melhor consegue avaliar se essas traduções cumprem verdadeiramente o seu propósito.
E talvez seja precisamente essa a maior lição desta nova geração de Inteligência Artificial:
A máquina gera linguagem. O ser humano continua a garantir significado.
Referências
Sperber, M. et al. (2024). Evaluating the IWSLT2023 Speech Translation Tasks: Human Annotations, Automatic Metrics, and Segmentation. International Workshop on Spoken Language Translation (IWSLT).
Han, H. J., Duh, K. & Carpuat, M. (2024). SpeechQE: Estimating the Quality of Direct Speech Translation. EMNLP 2024.
Wang, X. & Fantinuoli, C. (2024). Exploring the Correlation between Human and Machine Evaluation of Simultaneous Speech Translation.
End-to-End Speech-to-Text Translation: A Survey. Revisão abrangente sobre modelos, métricas, desafios e tendências futuras na tradução automática de fala.
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A AP | PORTUGAL é a expressão de serviço e visão nas áreas de tecnologias de comunicação, gestão de eventos, tradução, interpretação, comunicação inclusiva e acessibilidade digital, inteligência artificial e aluguer de equipamento audiovisual.
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